18/11/2009
a sala do Espelho
Começámos pelo andar da secção infanto-juvenil onde está uma das edições, a primeira que encontrei, do “Alice do Outro Lado do Espelho”.
Sentámo-nos no chão, entre uma mesa muito baixa – destinada às crianças – e a prateleira onde está o livro cercado pelos seis exemplares do “As Aventuras de Alice no País das Maravilhas”.
Muitas crianças em volta. Algumas pareciam fazer pesquisa nos computadores, outras viam desenhos animados na TV ao fundo da sala. Uns poucos, mais velhos, folheavam livros da prateleira que estava atrás de nós, enquanto preparávamos os tabuleiros e o equipamento de registo. O meu colega montava a câmara enquanto eu organizava as peças por “equipas”. Antes da pintura, havia separado os tabuleiros por cor – num, todas as peças brancas; no outro, as vermelhas.
Câmara montada e peças prontas, demos início à distribuição pela sala. Primeiro, como estava anotado no plano acção, tivemos em consideração a posição do livro na prateleira e, a partir dele, coordenámos a restante distribuição de acordo com a ilustração do Tenniel (figura 3.3), na medida do possível.
Outras possibilidades, para além daquelas que estavam planeadas, foram sendo exploradas à medida que surgiam. Aproveitámos, por exemplo, o próprio desenho das peças e as placas de informação da biblioteca para criar uma outra conotação para as peças: dois cavalos/cavaleiros brancos, muitos juntos, próximo da placa que dizia “romance”, desenhariam um coração.
Construções deste tipo também foram possíveis em outros momentos. Por exemplo, no encontro entre o bispo e o cavalo vermelhos sobre a placa “conto”. Em uma das fotos, a peça do sacerdote quase que se inclina para o cavalo, como se lhe contasse um segredo ao ouvido .
Todas as peças neste andar foram dispostas de maneira a serem facilmente encontradas, excepto uma que resolveu ficar escondida num sítio da biblioteca que, acredito, já não deve receber muitas visitas. O bispo branco preferiu esconder-se por trás da última fileira de fitas VHS.
No andar da secção infanto-juvenil, ninguém pareceu importar-se com a acção, muito menos com o barulho que o obturador da câmara fazia a cada registo. O mesmo não aconteceu no andar de cima, na secção de adultos. Numa das mesas de estudo, bem ao lado da prateleira onde estava a segunda edição do “Outro Lado do Espelho”, um grupo de 4 jovens que preparava o que parecia ser um trabalho de escola, ficou bastante atento à nossa movimentação pelos corredores da biblioteca. Quando terminámos, deixámos com eles quatro autocolantes do projecto e agradecemos, com gestos de mãos e murmúrios, por não nos terem denunciado à funcionária do andar.
Antes de sairmos, deixámos os dois tabuleiros que serviam de caixas para as peças de xadrez debaixo das mesas de estudo, um em cada andar. No andar da secção de adultos, o tabuleiro fazia-se acompanhar por um peão branco .
Durante o registo, procurámos captar a disposição das peças pela biblioteca e não o acto específico da sua colocação pelo espaço. Por esta razão, não há poses para a câmara com um peão na mão, nem nada que se pareça. Um dos objectivos da acção, e o registo tenta explicitar isso, é tentar transformar, de maneira subtil, os dois andares da biblioteca em portais para o Outro Lado do Espelho, em verdadeiros espaços privilegiados para se ter acesso àquele lugar. As peças, dispostas daquele modo específico, têm dois papéis: primeiro, funcionam como chamarizes, uma vez que estão em maior quantidade nas proximidades dos livros e se espalham pela biblioteca inteira, como que se as peças assumissem o papel de tentáculos estendidos por todas as prateleiras de ambos os andares; segundo, os dois exércitos, vermelho e branco, protegem e defendem essas entradas, actuando como guardiães do Outro Lado do Espelho.
Outro ponto importante que ultrapassa o registo é a tentativa de acompanhar o percurso ou os movimentos que as peças farão, ao longo do tempo, pelo espaço da biblioteca. Não na tentativa de se prever nem de se registar fielmente quantas peças foram para o caixote do lixo ou quanto tempo a instalação durou, mas sim na tentativa de observar, sem procurar interferir directamente, que peças terão chamado mais a atenção e que movimentos terão feito entre as prateleiras. (Algum xeque-mate? quantos roques?)
No dia seguinte à instalação, voltei à biblioteca uma hora antes do fecho, para ver o que tinha acontecido com as peças. Os dois tabuleiros foram recolhidos e estavam fechados em cima da mesa da funcionária do andar dos adultos. Numa rápida caminhada entre as prateleiras, foi possível observar que uma grande parte das peças ainda estava nos seus lugares. Tudo indica que a instalação tende a durar, ainda, mais algum tempo.
05/11/2009
Plano de Acção de "a sala do Espelho"
Nome
a sala do Espelho
Onde
Biblioteca Municipal de Aveiro
Quando
11 de Novembro de 2009
Trecho do livro
pág. 159, 160,161 e 162
(…)
Num instante, Alice passou através do vidro, e saltou agilmente para a sala do Espelho. A primeira coisa que fez foi ver se havia lume na lareira, e ficou muito contente por descobrir que havia um fogo verdadeiro, ardendo em grandes labaredas como o que ela deixara para trás. “Então estarei aqui tão quentinha como na velha sala”, pensou Alice, “ou até mais quente, na realidade, porque aqui não haverá ninguém para me mandar afastar do fogo. Oh, que divertido vai ser quando me virem aqui através do espelho, sem poderem apanhar-me.”
Em seguida, começou a olhar em volta, e reparou que aquilo que se podia ver do lado da sala velha era bastante vulgar e desinteressante, mas que tudo o resto era o mais diferente possível. Por exemplo, os quadros na parede ao pé da lareira pareciam ter vida, e mesmo o relógio no parapeito da chaminé (é que no espelho só se podia ver as costas dele) tinham a cara de um velhinho, que lhe sorria.
“Eles não arrumam tanto esta sala como a outra”, pensou Alice com seus botões, ao reparar em várias peças de xadrez na lareira entre as cinzas; mas logo a seguir pôs-se de gatas a olhá-las com um “oh!” de espanto. As peças passeavam-se por ali, aos pares!
- Cá estão o Rei e a Rainha Vermelhos – disse Alice (num sussurro, com medo de os assustar.) – E ali estão o Rei e a Rainha Brancos sentados na bordinha da pá…. E aqui vêm duas Torres de braço dado… Acho que eles não conseguem ouvir-me – continuou ela, baixando mais a cabeça. – E tenho quase a certeza de que não podem ver-me. Sinto-me um bocado como se estivesse a tornar-me invisível.
Então uma coisa qualquer começou a guinchar em cima da mesa atrás de Alice, fazendo-a voltar a cabeça mesmo a tempo de ver um dos Peões Brancos a estatelar-se, começando a espernear. Observou-o com grande curiosidade para ver o que ia acontecer a seguir.
Descrição resumida da acção
Em cada andar da Biblioteca Municipal existe uma edição de “Alices do Outro Lado do Espelho”, uma na secção de livros infantis, outra na secção de adultos. A acção consistirá em espalhar por esses andares peças do tabuleiro de xadrez.
A disposição das peças pelo espaço levará em consideração a posição dos livros da Alice nas suas respectivas prateleiras, de maneira que haja uma maior concentração quanto mais próxima se estiver deles. Em cada andar estarão as 32 peças do jogo, vermelhas e brancas, em todas as posições que o íman que há por baixo delas permitir.
Equipamentos Necessários
Dois jogos magnéticos de xadrez
Tinta spray vermelha (para as peças pretas se vestirem de vermelho)
Câmara fotográfica
05/11/2009
As peças espalhadas
As primeiras experiências com peças de xadrez na Biblioteca Municipal.
04/11/2009
Os dois tabuleiros
As primeiras imagens com os dois tabuleiros, um para cada andar da Biblioteca. As peças pretas se vestirão de vermelho antes de serem colocadas definitivamente pelo espaço.
03/11/2009
As duas edições separadas
Fotos do interior da Biblioteca Municipal de Aveiro, com especial atenção às duas edições do "Alices do Outro Lado do Espelho". Uma delas está na secção de crianças - a ilustrada. A outra, que tem apenas o desenho do tabuleiro na primeira página, na secção para adultos.
Detalhe também para a imagem que mostra o número de edições de "Alices no País das Maravilhas" na secção infantil, em comparação com o solitário "do Outro Lado do Espelho". Na secção para adultos, não há nenhuma edição do "País das Maravilhas".